Depois de uma longa pausa, resolvi começar este post pelo título, coisa que julgo nunca ter feito. A minha primeira dúvida foi se o título deveria ser uma interrogação ou uma afirmação. Resolvi-me pela hipótese afirmativa, para manter algum postivismo, e para tentar pôr por escrito uma breve conversa que tive ontem. Recordo ainda, antes de começar, que as ideias que vou aqui deixar provêm de um leigo em matérias económicas.
A meu ver, a crise não surge apenas e só dos produtos tóxicos detidos pelos Bancos. A crise que atravessamos hoje surge, em termos muito simples, porque os americanos resolveram deixar de pagar a prestação das suas casas. Este simples facto, aliado à explosão da bolha do mercado imobiliário, deixou os Bancos com casas que de nada lhes serviam, mas que também não conseguiam ser vendidas, dada a falta de procura.
Com isto, os Bancos perdem tudo. Não só ficam sem o dinheiro que emprestaram, como ainda ficam nas mãos com uma casa que não resolve qualquer problema. Depois disto, o que é que os Bancos fazem? Deixam de emprestar dinheiro, seja a quem for. E, para o mal e para o bem, o que é certo é que sem crédito, não há sistema económico que funcione, e isso causou o colapso a que temos assistido.
Como me disseram ontem, "são tempos históricos". Infelizmente é verdade. Atravessamos tempos históricos de crise económica, financeira e social. E se nada for feito, esta crise não se resolve por si, num vulgar passe de magia.
Em primeiro lugar, e falando sobretudo no caso português, há que recuperar a confiança nas instituições e nas pessoas. Pode parecer um factor irrisório mas, como já escrevi há uns tempos, esta crise tem uma forte componente psicológica, que tem minado a confiança das pessoas, e é urgente recuperar essa confiança antes que seja demasiado tarde. Obviamente que a confiança se recupera não só com falinhas mansas, mas também (e sobretudo) com actos concretos. Assim, é necessário proceder-se a uma profunda reforma legislativa, com vista a alterar aspectos bizarros da regulação dos mercados, por forma a permitir que o mercado funcione verdadeiramente, e não seja viciado pela aplicação de regras inúteis e prejudiciais.
Ainda no que respeita às pessoas, é necessário mudar mentalidades. As pessoas têm de perceber de uma vez por todas o que é e para que serve o crédito. Têm de ganhar consciência de que é errado gastar-se mais do que se ganha para se ter uma televisão topo de gama, em vez de outro aparelho com dois ou três anos. É necessário ensinar a classe média/baixa que o crédito se paga com juros, e que não é possível ostentar-se riqueza sem se ser minimamente rico.
Por fim, é essencial que o Estado saiba até onde intervir. Com esta crise, o Estado tem-se sentido como um Deus, salvando tudo e todos à custa dos contribuintes. É necessário que alguns sectores e algumas empresas morram e fechem, para que surjam outras no seu lugar. É ainda preciso que o Estado, em vez de investir disparatadamente, seja criterioso nos seus projectos e pense, antes de construir mais 20 auto-estradas ou mais 20 barragens, que pode canalizar esse dinheiro para reduzir impostos, aliviando a generalidade da população e permitindo-lhes ter mais dinheiro disponível no final de cada mês, aumentando assim o consumo (e quem sabe, reduzindo o recurso ao crédito) e motorizando a economia rumo à recuperação.
A meu ver, são estes os passos essenciais que devem ser tomados. Haverá alguém com coragem para os dar?
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Absolutamente inacreditável
A Assembleia Municipal de Lisboa recomendou hoje, numa moção do Bloco de Esquerda, a realização de um acordo de geminação entre a capital portuguesa e Gaza.A moção foi aprovada com a abstenção do PSD, PS e CDS-PP e os votos favoráveis do BE, PCP e PEV.
fonte: LUSA
Depois disto, o que virá? Será a geminação do Porto com Pyongyang? Coimbra com Harare?
fonte: LUSA
Depois disto, o que virá? Será a geminação do Porto com Pyongyang? Coimbra com Harare?
Questão pertinente
Pergunto-me como se sentirão hoje os fãs de Obama. Hoje, as conversas fiadas de esperança, mudança e yes we can já não servem de nada. A partir de hoje, o pretenso novo Messias desceu verdadeiramente à terra. E os problemas que o Mundo tinha a 19 de Janeiro, com Bush na presidência,são exactamente os mesmos que tem a 21 de Janeiro, o primeiro dia oficial de Obama. Será ele capaz de pôr mãos à obra, ou preferirá cultivar a dormência dos seus concidadãos?
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Ingenuidade acima de tudo
É curioso ver como, em pleno século XXI, suposto auge da modernidade e do racionalismo puro, as pessoas são tão ingénuas. Mais curioso ainda é ver que isso sucede no país mais desenvolvido do Mundo, e que essa ingenuidade é seguida pelo "politicamente correcto" dos restantes países.
Tudo isto a respeito da tomada de posse de Obama, que representa a vitória do marketing na maior democracia do Mundo.
É engraçado ver como as pessoas acreditam piamente numa mudança radical e estrutural, apenas e só porque Obama chegou à Casa Branca. O facto de ele ter sido eleito é obviamente meritório, mas é ingénuo e infantil acreditar que ele, sozinho, mudará o Mundo.
Em primeiro lugar, isto não acontecerá porque Obama é humano. E, sendo humano, terá tendência para ceder a pressões, que são bastante frequentes nos EUA dado o poder dos diversos lobbies, que estão infiltrados nas entranhas do poder federal. É preciso, de uma vez por todas, fazer com que as pessoas percebam que Obama é, literalmente, como um coelhinho da Páscoa: apesar de escuro e apelativo por fora, é oco por dentro.
Depois, é importante não esquecer que, para Obama, o dia de amanhã representa o final oficial da sua campanha, e a sua entrada em funções terá expectativas altíssimas que dificilmente serão cumpridas. Isto porque, muitas vezes, Obama falou "da boca para fora". Veja-se, por exemplo, o caso do encerramento de Guantánamo, que era um dado consumado durante a campanha, mas que agora parece que não será bem assim...
Por tudo isto, julgo que é triste que a esmagadora maioria dos americanos e a maior parte dos media ocidentais depositem tantas esperanças num homem que pode vir a nada resolver. Já é tempo de as pessoas acordarem do transe "Obâmico" e entenderem que ele é apenas um homem, e que nem todo o Mundo o apoia e acredita na sua mudança.
Caso resolvam permanecer hipnotizados por Obama, muitos serão os que se irão sentir desiludidos e enganados. Vai uma aposta?
Tudo isto a respeito da tomada de posse de Obama, que representa a vitória do marketing na maior democracia do Mundo.
É engraçado ver como as pessoas acreditam piamente numa mudança radical e estrutural, apenas e só porque Obama chegou à Casa Branca. O facto de ele ter sido eleito é obviamente meritório, mas é ingénuo e infantil acreditar que ele, sozinho, mudará o Mundo.
Em primeiro lugar, isto não acontecerá porque Obama é humano. E, sendo humano, terá tendência para ceder a pressões, que são bastante frequentes nos EUA dado o poder dos diversos lobbies, que estão infiltrados nas entranhas do poder federal. É preciso, de uma vez por todas, fazer com que as pessoas percebam que Obama é, literalmente, como um coelhinho da Páscoa: apesar de escuro e apelativo por fora, é oco por dentro.
Depois, é importante não esquecer que, para Obama, o dia de amanhã representa o final oficial da sua campanha, e a sua entrada em funções terá expectativas altíssimas que dificilmente serão cumpridas. Isto porque, muitas vezes, Obama falou "da boca para fora". Veja-se, por exemplo, o caso do encerramento de Guantánamo, que era um dado consumado durante a campanha, mas que agora parece que não será bem assim...
Por tudo isto, julgo que é triste que a esmagadora maioria dos americanos e a maior parte dos media ocidentais depositem tantas esperanças num homem que pode vir a nada resolver. Já é tempo de as pessoas acordarem do transe "Obâmico" e entenderem que ele é apenas um homem, e que nem todo o Mundo o apoia e acredita na sua mudança.
Caso resolvam permanecer hipnotizados por Obama, muitos serão os que se irão sentir desiludidos e enganados. Vai uma aposta?
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Crise de confiança
Os cenários da afamada crise agravam-se de dia para dia. Agora, já se espera deflação e recessão, e sabe-se lá o que serão as previsões económicas dos próximos dias.
O Governo, com a habilidade propagandística a que nos tem habituado, teve mais uma jogada para não dar o braço a torcer, aprovando um inédito "Orçamento Suplementar", que nada tem que ver com um eventual "Orçamento Rectificativo".
O motivo para este retoque? O do costume: a crise internacional. A mesma que justifica tudo o que de mau acontece em Portugal e que, quando dá jeito, também é invocada pelo nosso chefe de Marketing (também conhecido como Primeiro-Ministro) para anunciar que os portugueses irão ver o seu poder de compra aumentado.
No entanto, e já que se falou de Orçamento, há uma coisa que me deixa perplexo. O Governo retocou-o porque, na altura em que fez o primeiro Orçamento , não se apercebeu dos reais impactos da crise. Ou seja, nós, humildes contribuintes, pagámos (e pagamos) a supostos experts do Ministério das Finanças para eles não conseguirem prever um evento que estava à vista de todos.
Além disso, estas falhas nas previsões deixam-me também preocupado. Perante o argumento de que não se aperceberam dos efeitos da crise, quem nos garante a nós que as medidas que tomam agora sejam as correctas? Quem nos garante que, no mundo económico não se passam certas coisas que deveriam ser tidas em conta pelos tais experts em Orçamentos?
Este é o grande problema. Estamos a depositar a confiança para emendar a situação nas mesmas pessoas que não conseguiram prever uma crise que era evidente até para um leigo.
O Governo, com a habilidade propagandística a que nos tem habituado, teve mais uma jogada para não dar o braço a torcer, aprovando um inédito "Orçamento Suplementar", que nada tem que ver com um eventual "Orçamento Rectificativo".
O motivo para este retoque? O do costume: a crise internacional. A mesma que justifica tudo o que de mau acontece em Portugal e que, quando dá jeito, também é invocada pelo nosso chefe de Marketing (também conhecido como Primeiro-Ministro) para anunciar que os portugueses irão ver o seu poder de compra aumentado.
No entanto, e já que se falou de Orçamento, há uma coisa que me deixa perplexo. O Governo retocou-o porque, na altura em que fez o primeiro Orçamento , não se apercebeu dos reais impactos da crise. Ou seja, nós, humildes contribuintes, pagámos (e pagamos) a supostos experts do Ministério das Finanças para eles não conseguirem prever um evento que estava à vista de todos.
Além disso, estas falhas nas previsões deixam-me também preocupado. Perante o argumento de que não se aperceberam dos efeitos da crise, quem nos garante a nós que as medidas que tomam agora sejam as correctas? Quem nos garante que, no mundo económico não se passam certas coisas que deveriam ser tidas em conta pelos tais experts em Orçamentos?
Este é o grande problema. Estamos a depositar a confiança para emendar a situação nas mesmas pessoas que não conseguiram prever uma crise que era evidente até para um leigo.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
A entrevista
Acerca da entrevista de MFL à RTP, a questão central é só uma: MFL fez ou não fez uma plástica?
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Apoios de conveniência
19 de Abril de 2005:
«...críticas como as veiculadas pelo ex-presidente da República Mário Soares e pelo Nobel da Literatura José Saramago, que em declarações ao El Mundo considerou que com a eleição de Bento XVI, a "inquisição subiu ao poder".».
6 de Janeiro de 2008, artigo de opinião de Mário Soares no DN:
«...forneceu o pretexto a Israel, absolutamente desproporcional, como o Papa sublinhou, para um verdadeiro massacre sobre a Faixa de Gaza».
Conclusão: quando se trata de criticar Israel, Mário Soares apoia a Inquisição.
«...críticas como as veiculadas pelo ex-presidente da República Mário Soares e pelo Nobel da Literatura José Saramago, que em declarações ao El Mundo considerou que com a eleição de Bento XVI, a "inquisição subiu ao poder".».
6 de Janeiro de 2008, artigo de opinião de Mário Soares no DN:
«...forneceu o pretexto a Israel, absolutamente desproporcional, como o Papa sublinhou, para um verdadeiro massacre sobre a Faixa de Gaza».
Conclusão: quando se trata de criticar Israel, Mário Soares apoia a Inquisição.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Pausa
Com o aproximar da época de exames, irei fazer uma pausa aqui no blog. Este será, provavelmente, o último post de 2008.
Bom Natal a todos e até ao próximo ano.
Bom Natal a todos e até ao próximo ano.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
A revitalização pelo Estatuto
O Estatuto dos Açores vai, ao que tudo indica, ser hoje confirmado na Assembleia, com maioria de dois terços dos votos.
O dia de hoje marcará, portanto, o final oficial da cooperação estratégica do eixo Belém-São Bento, e tornará o ano de 2009 ainda mais difícil para Sócrates. A afronta explícita aos poderes do Presidente da República, feita pelo Estatuto, irá colocar Cavaco e Sócrates num clima de guerra aberta sem fim à vista.
Isto pode ser bastante prejudicial para Sócrates. Ao afrontar o Presidente, perde um importante aliado no cenário da política portuguesa e, acima de tudo, perde o silêncio do Presidente, que tão útil lhe tinha sido na adopção de medidas polémicas. É certo que, a partir de agora, também não podemos esperar que seja Cavaco a exercer oposição contra Sócrates.
Essa tarefa cabe, primacialmente, ao PSD, e é necessário que Manuela Ferreira Leite saiba aproveitar bem este momento. O PSD, a partir de agora, tem mais condições para fazer oposição a Sócrates, porque deixa de sofrer do constrangimento de, ao criticar Sócrates, atingir indirectamente o Presidente, que apoiava muitas das medidas do Governo socialista.
No entanto, julgo que o PSD terá de mudar bastante para poder aproveitar esta oportunidade. A ideia de desorganização e desgoverno interno ainda circula na sociedade portuguesa, tantas foram as mudanças na liderança nos últimos anos. E, se é certo que o PSD não precisa, neste momento, de um novo líder, é também óbvio que esta liderança precisa de agilizar processos e de uma boa dose de marketing político para conseguir revitalizar a sua forma de fazer oposição.
A oportunidade é única e, para o PSD, talvez até seja bom que o Estatuto dos Açores seja hoje confirmado na Assembleia. Mas é necessário que o PSD, de ora em diante, se comporte como uma verdadeira alternativa de poder, e não como uma manta de retalhos, que caminha sem direcção definida.
O ano de 2009 está á porta, e o PSD tem oportunidade de fazer estragos na maioria absoluta do PS.
O dia de hoje marcará, portanto, o final oficial da cooperação estratégica do eixo Belém-São Bento, e tornará o ano de 2009 ainda mais difícil para Sócrates. A afronta explícita aos poderes do Presidente da República, feita pelo Estatuto, irá colocar Cavaco e Sócrates num clima de guerra aberta sem fim à vista.
Isto pode ser bastante prejudicial para Sócrates. Ao afrontar o Presidente, perde um importante aliado no cenário da política portuguesa e, acima de tudo, perde o silêncio do Presidente, que tão útil lhe tinha sido na adopção de medidas polémicas. É certo que, a partir de agora, também não podemos esperar que seja Cavaco a exercer oposição contra Sócrates.
Essa tarefa cabe, primacialmente, ao PSD, e é necessário que Manuela Ferreira Leite saiba aproveitar bem este momento. O PSD, a partir de agora, tem mais condições para fazer oposição a Sócrates, porque deixa de sofrer do constrangimento de, ao criticar Sócrates, atingir indirectamente o Presidente, que apoiava muitas das medidas do Governo socialista.
No entanto, julgo que o PSD terá de mudar bastante para poder aproveitar esta oportunidade. A ideia de desorganização e desgoverno interno ainda circula na sociedade portuguesa, tantas foram as mudanças na liderança nos últimos anos. E, se é certo que o PSD não precisa, neste momento, de um novo líder, é também óbvio que esta liderança precisa de agilizar processos e de uma boa dose de marketing político para conseguir revitalizar a sua forma de fazer oposição.
A oportunidade é única e, para o PSD, talvez até seja bom que o Estatuto dos Açores seja hoje confirmado na Assembleia. Mas é necessário que o PSD, de ora em diante, se comporte como uma verdadeira alternativa de poder, e não como uma manta de retalhos, que caminha sem direcção definida.
O ano de 2009 está á porta, e o PSD tem oportunidade de fazer estragos na maioria absoluta do PS.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
O CDS e Paulo Portas
O CDS, pretensa terceira força política portuguesa, está a encolher. Esta semana, e pela segunda vez num curto espaço de tempo, inúmeros militantes entregaram o seu cartão e abandonaram o partido, como forma de protesto para com a gestão de Paulo Portas.
A meu ver, o grande erro de Portas foi o elevado grau pessoal que ele imprimiu ao partido. O CDS passou a ser PP, mas não por ser Partido Popular. Passou a ser PP porque Paulo Portas monopolizou o partido de tal forma que, neste momento, o CDS não existe sem Paulo Portas, nem Portas existe politicamente sem o "seu" CDS.
Obviamente que um líder, quando está à frente de um partido, tem sempre tendência a moldá-lo de acordo com o seu gosto. Mas no caso de Portas, ele não moldou o CDS a seu gosto; ele erigiu um novo CDS à volta da sua pessoa. E isso fez com que o CDS "do antigamente" perdesse a sua identidade básica e alguns dos seus princípios essenciais, para se tornar na projecção institucional da figura do seu líder.
Mas também é certo que Portas tem muito mérito. Graças a ele, o CDS foi um partido de Governo, coisa que parece pouco provável num futuro próximo. Se Durão Barroso não se tivesse ido embora, quem sabe onde poderia estar neste momento o CDS? Seria certamente a terceira força política, e teria margem de manobra para condicionar uma governação, quer do PS, quer do PSD.
O grande problema é que Portas não vive sem o CDS, e o CDS não vive sem Portas. O grau de envolvimento entre Portas e o CDS é tal, que já não passam um sem o outro (veja-se como o vício de falta de poder afectou Portas enquanto Ribeiro e Castro foi líder). E isto é que complica tudo, quer ao CDS, quer a Portas.
O CDS está numa posição delicada porque, ainda que houvesse outro líder, a sombra de Portas pairaria sempre, tal como ocorreu com Ribeiro e Castro. Nenhum líder, além do actual, estará seguro no CDS enquanto Portas "andar por aí". Portas conseguiu "secar" o CDS, de forma a que não seja concebível este partido sem Portas na liderança.
E isto é perigoso para o CDS, que se vê dividido entre um líder razoável, mas que dificilmente brilhará nas eleições, ou um abismo gigantesco, por falta de alternativas viáveis.
A excessiva pessoalização do CDS também pode sair cara a Portas. E estas desfiliações, apesar de poucas, deveriam chamar-lhe a atenção para isso. Portas, ao aplicar a lei do "quero, posso e mando" dentro do seu partido, arrisca-se a criar divisões onde elas não deveriam existir. E, como é lógico, uma divisão pequena num partido pequeno como o CDS tem muito mais impacto nos votos do que uma divisão pequena num partido grande, como o PSD ou o PS.
Num partido grande, se saem 100 militantes é relativamente indiferente. Num partido pequeno, é a união que faz a força, e todos os votos, militantes e influências podem ser decisivos numas eleições.
Era bom que Portas reflectisse um pouco, e que cedesse na sua lógica centralizadora do partido. Assim, evitar-se-iam divisões e saídas desnecessárias, não haveria má publicidade para o partido, e não se correria o (sério) risco de ver o CDS ser ultrapassado pelo Bloco de Esquerda nas várias eleições do próximo ano.
A meu ver, o grande erro de Portas foi o elevado grau pessoal que ele imprimiu ao partido. O CDS passou a ser PP, mas não por ser Partido Popular. Passou a ser PP porque Paulo Portas monopolizou o partido de tal forma que, neste momento, o CDS não existe sem Paulo Portas, nem Portas existe politicamente sem o "seu" CDS.
Obviamente que um líder, quando está à frente de um partido, tem sempre tendência a moldá-lo de acordo com o seu gosto. Mas no caso de Portas, ele não moldou o CDS a seu gosto; ele erigiu um novo CDS à volta da sua pessoa. E isso fez com que o CDS "do antigamente" perdesse a sua identidade básica e alguns dos seus princípios essenciais, para se tornar na projecção institucional da figura do seu líder.
Mas também é certo que Portas tem muito mérito. Graças a ele, o CDS foi um partido de Governo, coisa que parece pouco provável num futuro próximo. Se Durão Barroso não se tivesse ido embora, quem sabe onde poderia estar neste momento o CDS? Seria certamente a terceira força política, e teria margem de manobra para condicionar uma governação, quer do PS, quer do PSD.
O grande problema é que Portas não vive sem o CDS, e o CDS não vive sem Portas. O grau de envolvimento entre Portas e o CDS é tal, que já não passam um sem o outro (veja-se como o vício de falta de poder afectou Portas enquanto Ribeiro e Castro foi líder). E isto é que complica tudo, quer ao CDS, quer a Portas.
O CDS está numa posição delicada porque, ainda que houvesse outro líder, a sombra de Portas pairaria sempre, tal como ocorreu com Ribeiro e Castro. Nenhum líder, além do actual, estará seguro no CDS enquanto Portas "andar por aí". Portas conseguiu "secar" o CDS, de forma a que não seja concebível este partido sem Portas na liderança.
E isto é perigoso para o CDS, que se vê dividido entre um líder razoável, mas que dificilmente brilhará nas eleições, ou um abismo gigantesco, por falta de alternativas viáveis.
A excessiva pessoalização do CDS também pode sair cara a Portas. E estas desfiliações, apesar de poucas, deveriam chamar-lhe a atenção para isso. Portas, ao aplicar a lei do "quero, posso e mando" dentro do seu partido, arrisca-se a criar divisões onde elas não deveriam existir. E, como é lógico, uma divisão pequena num partido pequeno como o CDS tem muito mais impacto nos votos do que uma divisão pequena num partido grande, como o PSD ou o PS.
Num partido grande, se saem 100 militantes é relativamente indiferente. Num partido pequeno, é a união que faz a força, e todos os votos, militantes e influências podem ser decisivos numas eleições.
Era bom que Portas reflectisse um pouco, e que cedesse na sua lógica centralizadora do partido. Assim, evitar-se-iam divisões e saídas desnecessárias, não haveria má publicidade para o partido, e não se correria o (sério) risco de ver o CDS ser ultrapassado pelo Bloco de Esquerda nas várias eleições do próximo ano.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Faltas de presença
No meio da falta de imaginação da semana passada, acabei por me esquecer de abordar a questão das faltas dos deputados.
Sem prejuízo de já ir um pouco fora de tempo, julgo que há vários aspectos que merecem ser focados.
Em primeiro lugar, a falta de profissionalismo dos faltosos. É verdadeiramente indecente que uma pessoa, eleita para um lugar num órgão de soberania representativo de toda a população, falte sem dar qualquer justificação ou, pior ainda, assine o livro de ponto e saia posteriormente. Gestos desta natureza não abonam a favor da classe política que, segundo muitos estudos, é das que têm pior conotação dentro da sociedade portuguesa.
Um profissional, independentemente da sua remuneração (mas tendo sempre em conta que os deputados não ganham nada mal..), tem de ter brio naquilo que faz. Não é uma questão de amor à camisola, como se costuma dizer. É uma questão de mero respeito para com o cargo que exerce e o lugar que ocupa. Pode até nem gostar de fazer o seu trabalho, ou estar ali contrariado, mas tem de ter sempre a noção de que tudo aquilo que fizer enquanto desempenhar aquele cargo tem de ser feito com profissionalismo e dedicação.
Depois, é de destacar ainda a falta de coordenação do grupo parlamentar do PSD. Numa votação onde podiam ter colocado o PS numa posição difícil, o PSD não teve a força necessária para afastar dos seus deputados a tentação de partir mais cedo para um fim de semana prolongado. Esta falta de capacidade de mobilização, além de deixar ver a falta de profissionalismo que realcei acima, transparece ainda uma grave crise de militância, já que houve 30 pessoas que não trocaram um fim de semana prolongado pela defesa de uma causa relacionada com o partido que representam.
Por fim, falta destacar a leveza com que o assunto foi encarado. E a personificação dessa leveza (apesar de fisicamente não o parecer...) é Guilherme Silva, deputado do PSD, que defendeu o fim dos plenários à sexta-feira. Não sei se ele esteve presente nessa votação, ou se deu uma desculpa esfarrapada para faltar, mas o simples facto de ter feito esta sugestão demonstra bem o grau de profissionalismo que reina entre os nossos deputados.
Nesta sugestão, Guilherme Silva apostou na velha táctica do "se não podes vencer, junta-te a eles". Os deputados faltam à sexta-feira? Pois bem, crie-se uma lei que os desobrigue de comparecer na AR à sexta-feita. O número de roubos tem aumentado? Nada mais simples...crie-se uma lei que descriminalize o roubo, e esses números baixarão num instante.
Enfim, são gestos destes que acentuam bem o descrédito existente para com os políticos. Talvez fosse melhor acabar com eles. Assim, acabava-se também o descrédito...
Sem prejuízo de já ir um pouco fora de tempo, julgo que há vários aspectos que merecem ser focados.
Em primeiro lugar, a falta de profissionalismo dos faltosos. É verdadeiramente indecente que uma pessoa, eleita para um lugar num órgão de soberania representativo de toda a população, falte sem dar qualquer justificação ou, pior ainda, assine o livro de ponto e saia posteriormente. Gestos desta natureza não abonam a favor da classe política que, segundo muitos estudos, é das que têm pior conotação dentro da sociedade portuguesa.
Um profissional, independentemente da sua remuneração (mas tendo sempre em conta que os deputados não ganham nada mal..), tem de ter brio naquilo que faz. Não é uma questão de amor à camisola, como se costuma dizer. É uma questão de mero respeito para com o cargo que exerce e o lugar que ocupa. Pode até nem gostar de fazer o seu trabalho, ou estar ali contrariado, mas tem de ter sempre a noção de que tudo aquilo que fizer enquanto desempenhar aquele cargo tem de ser feito com profissionalismo e dedicação.
Depois, é de destacar ainda a falta de coordenação do grupo parlamentar do PSD. Numa votação onde podiam ter colocado o PS numa posição difícil, o PSD não teve a força necessária para afastar dos seus deputados a tentação de partir mais cedo para um fim de semana prolongado. Esta falta de capacidade de mobilização, além de deixar ver a falta de profissionalismo que realcei acima, transparece ainda uma grave crise de militância, já que houve 30 pessoas que não trocaram um fim de semana prolongado pela defesa de uma causa relacionada com o partido que representam.
Por fim, falta destacar a leveza com que o assunto foi encarado. E a personificação dessa leveza (apesar de fisicamente não o parecer...) é Guilherme Silva, deputado do PSD, que defendeu o fim dos plenários à sexta-feira. Não sei se ele esteve presente nessa votação, ou se deu uma desculpa esfarrapada para faltar, mas o simples facto de ter feito esta sugestão demonstra bem o grau de profissionalismo que reina entre os nossos deputados.
Nesta sugestão, Guilherme Silva apostou na velha táctica do "se não podes vencer, junta-te a eles". Os deputados faltam à sexta-feira? Pois bem, crie-se uma lei que os desobrigue de comparecer na AR à sexta-feita. O número de roubos tem aumentado? Nada mais simples...crie-se uma lei que descriminalize o roubo, e esses números baixarão num instante.
Enfim, são gestos destes que acentuam bem o descrédito existente para com os políticos. Talvez fosse melhor acabar com eles. Assim, acabava-se também o descrédito...
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Branca
Peço desculpa aos leitores, mas estou sem imaginação esta semana.
Para a semana tento novamente...
Para a semana tento novamente...
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Começou a guerra
O PS deu uma argolada de todo o tamanho ao não ter alterado o Estatuto dos Açores. Em primeiro lugar, comprou uma guerra com quem menos lhe interessava (já lhe bastam os professores, os alunos e sabe-se lá que mais...). Depois, fez birra numa questão menor e que, directamente, pouco lhe dizia respeito.
Com tudo isto, o PS (e o Governo) perdeu o maior aliado não governamental que tinha neste momento. Cavaco, até aqui, tinha sido um Presidente contido nas suas declarações, rápido a elogiar e discreto nas críticas que fazia. E isto é facilmente comprovável: basta falar no suspense gerado pela declaração que Cavaco fez em Julho para ver quão discreto tinha sido Cavaco até então acerca dos Açores.
A partir daqui, nada será como dantes.
Acredito plenamente que Cavaco não desate a criticar Sócrates e o Governo publicamente, mas estou certo que, em privado, a tal cooperação estratégica não vai ter nem cooperação nem estratégia comum, e que vai ser cada um por si.
Claro que os poderes presidenciais são de tal forma escassos que Cavaco não vai poder fazer mais do que vetar umas quantas leis para poder ir dando umas alfinetadas a Sócrates.
Mas, de qualquer forma, será mais um inimigo ganho pelo Governo, e que nada o ajudará numa altura em que as eleições estão próximas.
Com tudo isto, o PS (e o Governo) perdeu o maior aliado não governamental que tinha neste momento. Cavaco, até aqui, tinha sido um Presidente contido nas suas declarações, rápido a elogiar e discreto nas críticas que fazia. E isto é facilmente comprovável: basta falar no suspense gerado pela declaração que Cavaco fez em Julho para ver quão discreto tinha sido Cavaco até então acerca dos Açores.
A partir daqui, nada será como dantes.
Acredito plenamente que Cavaco não desate a criticar Sócrates e o Governo publicamente, mas estou certo que, em privado, a tal cooperação estratégica não vai ter nem cooperação nem estratégia comum, e que vai ser cada um por si.
Claro que os poderes presidenciais são de tal forma escassos que Cavaco não vai poder fazer mais do que vetar umas quantas leis para poder ir dando umas alfinetadas a Sócrates.
Mas, de qualquer forma, será mais um inimigo ganho pelo Governo, e que nada o ajudará numa altura em que as eleições estão próximas.
Dualidade de critérios
Há uma coisa que me tem intrigado nos últimos tempos, e que não tem nada que ver com política, economia ou qualquer outro assunto da actualidade.
Falo das famosas séries da televisão norte-americana. Neste momento, além de Dr.House, sigo também a nova série de 30 Rock (muito bom, mesmo antes dos Emmy) e ainda "Samantha Who?". No fundo, são séries leves, com bastante sentido de humor, e que permitem descontrair no final da semana.
No entanto, apesar de serem leves e humorísticas, há um aspecto que me deixa perplexo.
Nestas séries que acompanho (e em muitas outras de que já ouvi falar), os personagens têm o hábito de sair do trabalho e ir, como se costuma dizer, "beber um copo". Ora, até aqui, nada de mal. Mas depois, chegam a casa e o que fazem? O jantar, cuja confecção é acompanhada por um copo de vinho. Depois do jantar, quais são os planos? Sair para um bar e ficar na farra até às tantas, com a respectiva dose de bebidas à mistura.
Apesar de não ser um fundamentalista abstémio (e de nem sequer ser abstémio...) faz-me uma certa confusão que se faça uma tal apologia do alcool em séries que, para os padrões rígidos dos EUA, estão classificadas para maiores de 12 anos. Qualquer pessoa que veja isto acha perfeitamente natural que se beba todas as noites, que se saia todas as noites e que um dia de trabalho não esteja completo sem uma ida ao tal bar com os amigos.
Mas mais confusão me faz que, nas mesmas séries onde se incentiva ao consumo do alcool, seja um crime de lesa-pátria um personagem acender um cigarro. Ou melhor, um dos personagens até poderá eventualmente acender um cigarro mas é quase certo que esse será o mau da fita.
Impressiona-me sobretudo a dualidade de critérios. Num caso, promove-se o consumo regular de alcool. Quanto aos cigarros, só se acendem para criticar as personagens que o fazem.
Falo das famosas séries da televisão norte-americana. Neste momento, além de Dr.House, sigo também a nova série de 30 Rock (muito bom, mesmo antes dos Emmy) e ainda "Samantha Who?". No fundo, são séries leves, com bastante sentido de humor, e que permitem descontrair no final da semana.
No entanto, apesar de serem leves e humorísticas, há um aspecto que me deixa perplexo.
Nestas séries que acompanho (e em muitas outras de que já ouvi falar), os personagens têm o hábito de sair do trabalho e ir, como se costuma dizer, "beber um copo". Ora, até aqui, nada de mal. Mas depois, chegam a casa e o que fazem? O jantar, cuja confecção é acompanhada por um copo de vinho. Depois do jantar, quais são os planos? Sair para um bar e ficar na farra até às tantas, com a respectiva dose de bebidas à mistura.
Apesar de não ser um fundamentalista abstémio (e de nem sequer ser abstémio...) faz-me uma certa confusão que se faça uma tal apologia do alcool em séries que, para os padrões rígidos dos EUA, estão classificadas para maiores de 12 anos. Qualquer pessoa que veja isto acha perfeitamente natural que se beba todas as noites, que se saia todas as noites e que um dia de trabalho não esteja completo sem uma ida ao tal bar com os amigos.
Mas mais confusão me faz que, nas mesmas séries onde se incentiva ao consumo do alcool, seja um crime de lesa-pátria um personagem acender um cigarro. Ou melhor, um dos personagens até poderá eventualmente acender um cigarro mas é quase certo que esse será o mau da fita.
Impressiona-me sobretudo a dualidade de critérios. Num caso, promove-se o consumo regular de alcool. Quanto aos cigarros, só se acendem para criticar as personagens que o fazem.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Já que simplificam o divórcio
Com esta nova lei do divórcio, que tudo simplifica e tudo desburocratiza (incluindo os anos de vida em comum e respectivos filhos que daí provêm), venho prestar um enorme serviço (quase serviço público) para as pessoas que não sabem o que hão de dar a amigos ou familiares que estejam para casar.
A minha sugestão é a seguinte:
A minha sugestão é a seguinte:

Exactamente. Um bloco-notas. E para quê?
É muito simples. Com todas estas novas regras de compensação de créditos entre cônjuges, o melhor é mesmo ter um bloco-notas à mão para ir apontando as contribuições financeiras de cada um para aquela família que, mais tarde ou mais cedo (e pela lógica socialista) irá sucumbir ao divórcio e ficar irremediavelmente separada.
Portanto, aqui fica a sugestão. É barato, simples e dá jeito. Mais dia menos dia, ainda vamos ver o nosso "Primeiro" a distribuir kits de blocos-notas nas Conservatórias e Igrejas aos recém-casados.
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Não somos comunas, apesar de parecermos
Nos últimos dias, qualquer estrangeiro que tenha chegado a Lisboa e tenha passeado um pouco pela cidade, vai ficar a pensar que está na China ou na Coreia do Norte.
O motivo? O Congresso do PCP, que encheu inúmeras praças da capital com bandeiras comunistas (incluindo a Praça Francisco Sá Carneiro, o qual, neste momento, deve ter dado várias voltas na tumba...).
Ou seja, autoriza-se que um partido que faz propaganda a uma ideologia que matou mais de 20 milhões de pessoas inunde Lisboa com bandeiras e cartazes, como se vivêsssemos sob o seu jugo.
Uma pequena questão: e se fossem o PNR a fazer isto? Ainda haveria bandeiras espalhadas pela cidade?
Duvido...
O motivo? O Congresso do PCP, que encheu inúmeras praças da capital com bandeiras comunistas (incluindo a Praça Francisco Sá Carneiro, o qual, neste momento, deve ter dado várias voltas na tumba...).
Ou seja, autoriza-se que um partido que faz propaganda a uma ideologia que matou mais de 20 milhões de pessoas inunde Lisboa com bandeiras e cartazes, como se vivêsssemos sob o seu jugo.
Uma pequena questão: e se fossem o PNR a fazer isto? Ainda haveria bandeiras espalhadas pela cidade?
Duvido...
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Cavaco, Dias Loureiro e o BPN
O caso BPN está a revelar-se um grande problema para Cavaco Silva. Por um lado, tem suspeitas de que estaria a haver tentativas de associar o seu nome ao Banco. Por outro, tem o caso Dias Loureiro.
Quanto ao primeiro problema, julgo que Cavaco fez bem em distribuir o comunicado. Com isso, renovou a ideia de transparência, e conseguiu afastar as suspeitas antes que elas fossem manchete num qualquer jornal, o que seria terrível para a imagem do Presidente.
O segundo problema é bastante mais delicado, e exige algum cuidado e ponderação. Como membro do Conselho de Estado, Dias Loureiro tem o poder de aconselhar o Presidente. Um poder que é, inclusivamente, diferente do dos outros membros, porque Dias Loureiro foi escolhido directamente por Cavaco, enquanto que os outros, ou estão no Conselho de Estado por inerência de outros cargos que ocupam, ou então foram eleitos pela Assembleia da República.
Portanto, o facto de Dias Loureiro ser escolhido directamente por Cavaco demonstra bem a confiança existente entre ambos.
Em princípio, essa confiança seria suficiente para que Cavaco estivesse a par de todos os outros assuntos profissionais de Dias Loureiro e, julgo eu, também seria suficiente para que Cavaco já soubesse de tudo o que se passava no BPN, quer Dias Loureiro tenha responsabilidades nisso quer não as tenha.
O grande problema é que, em Portugal, qualquer pessoa que é acusada ou indiciada da prática de um crime, desde que seja minimamente conhecida, tem tempo de antena numa qualquer televisão para tentar esclarecer os portugueses da sua inocência. O problema aqui é que nem os portugueses são juízes, nem os estúdios de televisão são tribunais.
E aqui é que Dias Loureiro errou grosseiramente. Mais valia ter ficado bem calado e, se fosse chamado, ter ido aos sítios próprios prestar os esclarecimentos necessários. Esta situação de virgem ofendida que vai à RTP demonstrar o seu total desconhecimento dos crimes praticados no BPN não fica bem a Dias Loureiro, porque põe os portugueses como juízes de algo que não lhes compete a si decidir.
Dias Loureiro tem, portanto, de se preocupar em esclarecer o Ministério Público, a PJ e os Tribunais judiciais, caso lhe seja pedido que o faça. Não pode simplesmente chegar à RTP e debitar a sua inocência, arriscando-se a ver os seus factos a serem desmentidos publicamente.
Neste momento põe-se o problema: poderá Cavaco tolerar que o seu Conselho de Estado possa ver reduzida a sua credibilidade, por causa de um membro por si escolhido?
A meu ver, não.
Cavaco, com toda a confiança e amizade que tem com Dias Loureiro, deve chamá-lo a Belém e pedir-lhe, ainda que a lei não o preveja expressamente, que ele cesse as suas funções no Conselho de Estado.
E, se essa confiança e amizade existir, Dias Loureiro não hesitará em abandonar o Conselho de Estado, poupando Cavaco a um escândalo que nada lhe convém enquanto Presidente da República.
Quanto ao primeiro problema, julgo que Cavaco fez bem em distribuir o comunicado. Com isso, renovou a ideia de transparência, e conseguiu afastar as suspeitas antes que elas fossem manchete num qualquer jornal, o que seria terrível para a imagem do Presidente.
O segundo problema é bastante mais delicado, e exige algum cuidado e ponderação. Como membro do Conselho de Estado, Dias Loureiro tem o poder de aconselhar o Presidente. Um poder que é, inclusivamente, diferente do dos outros membros, porque Dias Loureiro foi escolhido directamente por Cavaco, enquanto que os outros, ou estão no Conselho de Estado por inerência de outros cargos que ocupam, ou então foram eleitos pela Assembleia da República.
Portanto, o facto de Dias Loureiro ser escolhido directamente por Cavaco demonstra bem a confiança existente entre ambos.
Em princípio, essa confiança seria suficiente para que Cavaco estivesse a par de todos os outros assuntos profissionais de Dias Loureiro e, julgo eu, também seria suficiente para que Cavaco já soubesse de tudo o que se passava no BPN, quer Dias Loureiro tenha responsabilidades nisso quer não as tenha.
O grande problema é que, em Portugal, qualquer pessoa que é acusada ou indiciada da prática de um crime, desde que seja minimamente conhecida, tem tempo de antena numa qualquer televisão para tentar esclarecer os portugueses da sua inocência. O problema aqui é que nem os portugueses são juízes, nem os estúdios de televisão são tribunais.
E aqui é que Dias Loureiro errou grosseiramente. Mais valia ter ficado bem calado e, se fosse chamado, ter ido aos sítios próprios prestar os esclarecimentos necessários. Esta situação de virgem ofendida que vai à RTP demonstrar o seu total desconhecimento dos crimes praticados no BPN não fica bem a Dias Loureiro, porque põe os portugueses como juízes de algo que não lhes compete a si decidir.
Dias Loureiro tem, portanto, de se preocupar em esclarecer o Ministério Público, a PJ e os Tribunais judiciais, caso lhe seja pedido que o faça. Não pode simplesmente chegar à RTP e debitar a sua inocência, arriscando-se a ver os seus factos a serem desmentidos publicamente.
Neste momento põe-se o problema: poderá Cavaco tolerar que o seu Conselho de Estado possa ver reduzida a sua credibilidade, por causa de um membro por si escolhido?
A meu ver, não.
Cavaco, com toda a confiança e amizade que tem com Dias Loureiro, deve chamá-lo a Belém e pedir-lhe, ainda que a lei não o preveja expressamente, que ele cesse as suas funções no Conselho de Estado.
E, se essa confiança e amizade existir, Dias Loureiro não hesitará em abandonar o Conselho de Estado, poupando Cavaco a um escândalo que nada lhe convém enquanto Presidente da República.
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